quarta-feira, 25 de março de 2009
domingo, 22 de março de 2009
SEMANA DA ESCOLA
A nossa escola está viva! Consulta aqui as muitas actividades que se vão realizar na nossa escola entre os dias 23 e 27 de Março.sábado, 21 de março de 2009

«O real e o virtual coexistem, e entram num estreito circuito que nos reenvia constantemente de um para outro. Já não é uma singularização, mas uma individuação como processo, o real e o seu virtual. Já não é uma actualização mas uma cristalização. A pura virtualidade já não tem de se actualizar uma vez que é estritamente correlativa do real com o qual forma o circuito mais pequeno. Já não há inassinabilidade do real e do virtual, mas indiscernibilidade entre os dois termos que se trocam. […] A relação do real e do virtual constitui sempre um circuito, mas de duas maneiras: tanto o real reenvia para virtuais como para outras coisas em vastos circuitos, onde o virtual se actualiza, como o real reenvia para o virtual como para o seu próprio virtual, nos mais pequenos circuitos onde o virtual cristaliza com o real.»
Gilles Deleuze, Diálogos

se passe num laboratório?
Debaixo de uma lâmpada de dia,
à noite debaixo de biliões?
Talvez sejamos gerações experimentais?
Despejados de recipiente em recipiente,
agitados nas retortas,
observados por algo mais que o olhar,
um a um
enfim seguros na ponta das pincetas?
Talvez de outro modo:
nenhuma intervenção?
As mudanças vão ocorrendo por si
de acordo com o plano?
A agulha de registo desenha devagar
os ziguezagues previstos?
Talvez até agora nada de interessante haja em nós?
Os monitores de controlo raramente são ligados?
Só quando há guerra e grande de preferência,
alguns voos para além deste torrão,
migrações importantes do ponto A ao B?
Talvez pelo contrário:
lá apreciem somente em episódios?
Eis no grande écran uma pequenita
a coser um botão na sua manga.
Apitam os sensores,
acorre o pessoal.
Que espécime é este
de coraçãozito a bater no meio!
Que graciosa atenção
ao enfiar da linha na agulha!
Alguém entusiasmado grita:
Chamem o Chefe!
Ele que venha ver com os próprios olhos.
Wislawa Szymborska (tradução de Júlio Sousa Gomes)
quarta-feira, 18 de março de 2009
Uma das questões que se colocam no filme Matrix é a de saber porque é que é melhor saber a verdade sobre a matrix e portanto conhecer a realidade adversa ou, por outro lado, manter-se na ilusão, na matrix conformado e tranquilo.
O filme sugere inúmeros problemas filosóficos passíveis de debate. Problemas estes já abordados de alguma forma por vários autores ao l
ongo da história da filosofia e outros que se nos colocam contemporaneamente de forma nova.Este problema mencionado no início, a saber, se é preferível a verdade ou a ilusão, pode ser identificado com um tema clássico da Filosofia Política que se pergunta se faz sentido a ideologia política vigente e os valores vigentes ou se será melhor a libertação de uma ideologia propagandística mediante a mudança de paradigma, isto é, mediante a revolução.
Sem querer antecipar o debate que será realizado, pode-se dar atenção a um ou dois aspectos deste problema. Por exemplo, pode-se pôr em questão porque é que na tradição cultural ocidental é moralmente reprovável escolher a ilusão em vez da verdade. Porque é que, apresentado de outra forma, é imoral aceitar uma utopia que mistifica um povo, uma ditadura de direita ou de esquerda como se constituíram no passado?
Colocando a pergunta de uma forma mais contemporânea seria o equivalente a perguntar porque é que é imoral aceitar a ilusão do Eldorado e da riqueza que a ideologia capitalista liberal propõe.
Contudo, estas perguntas às quais imediatamente acedemos com uma resposta mais ou menos emocional, mais ou menos pensada e fundamentada, tapam por sua vez outras perguntas de base sem as quais não se pode responder com real importância se não se lhes der atenção. Ou seja, temos de recuar ou descer um patamar aos fundamentos do que está em questão para podermos ter uma conversa sobre isso que valha a pena.
Por exemplo, quando nos perguntamos porque é que a verdade é melhor que a ilusão de um ponto de vista moral temos de ter clarificado anteriormente o que é uma moral, qual é a nossa moral e que justificação (ética ou filosófica) temos para defender esta moral em vez de outra ou de nenhuma.
Outra pergunta de base que se deve colocar quando se pergunta porque é que moralmente a verdade é preferível à ilusão é: afinal o que entendemos por verdade ou o que é para nós a realidade e como podemos provar isso.
Por fim, e a título de exemplo, duas últimas perguntas que subjazem a esta pergunta (porque é que moralmente é preferível a realidade ou a verdade em vez da ilusão) – se procurar a verdade implica cortar com a ilusão presente, e portanto fazer uma revolução material, ideológica e/ou política, como podemos provar que a revolução trará uma mudança ou apenas uma outra ilusão?
E, por fim, como podemos provar ou saber se mais alguém, além de nós próprios, quer a revolução, ou que direito temos de forçar os outros a aceitar aquilo que tomamos pela realidade?
Estas são apenas algumas propostas de debate que este tema e este filme rico em dúvidas e ideias promove. Gostaria de convidar todos os interessados a duvidarem e a participarem nos debates que se realizarão nos próximos dias neste âmbito.
Tecnologias do Oriente e do Ocidente
a propósito do Matrix
Alice Santos
Embora não seja ainda um paradigma tornado senso comum, a física quântica coincide em muitos aspectos com ideias orientais milenares acerca da estrutura do universo: a mente (sujeito) não é uma entidade separada do mundo (objecto) e aquilo que pensávamos ser matéria inerte é ( e sempre foi para algumas escolas espirituais do Oriente) um imenso mar de energia no qual as formas diferenciadas aparecem e desaparecem. Para a teoria da relatividade, o espaço e o tempo são construções da mente. Nunca como hoje as bases metafísicas da ciência estiveram tão consistentemente lançadas. A proposta da mecânica quântica vem contrariar um materialismo técnológico de endeusamento de uma razão que acaba no sofrimento da separatividade e falta de sabedoria ( produtos da física dualista newtoniana). Por outro lado, a proposta da física quântica reúne as condições para a consumação de um encontro profícuo com saberes milenares ou o que tem sido designado por tecnologia psicoespiritual.
Podemos descobri-la em doutrinas indianas de libertação (Moksha) – os grandes Yogas do Hinduísmo e do Budismo, por exemplo. Os ensinamentos práticos desses sábios antigos (Yoguis) podem ser considerados como uma espécie de tecnologia que procura adquirir o controlo sobre o universo interior, o meio ambiente da consciência. Tais práticas são o legado de uma tradição com quatro ou cinco mil anos de existência. Essa tecnologia psicoespiritual é uma sabedoria e um conhecimento aplicados ao serviço do destino evolutivo superior da humanidade através de propostas práticas para a maturação psicoespiritual do indivíduo, implicando uma tal realização a mudança radical da consciência que temos da nossa identidade, de quem julgamos ser. Práticas de respiração, posturas corporais, interiorização sensorial, gestos, vocalização de sons visando a criação de um corpo transubstanciado, feito de energia e de luz.As pessoas, concebidas como entidades isoladas, acorrentadas ao sofrimento, doença, medo e morte será fruto de ilusão ou de realidade? Como realizar então a busca de liberdade e de felicidade comuns à humanidade inteira? Para a física quântica e escolas de Hatha-Yoga (que nasceram do Tantrismo), a entidade física isolada não passa de uma ilusão; o chamado mundo objectivo é uma projecção da mente. A imagem do Hinduísmo clássico de Shiva Natarâja ou “Senhor da Dança” que, ao dançar, cria perpetuamente os ritmos do universo, os ciclos de criação e de destruição, a própria realidade, fascinou profundamente vários físicos quânticos.
Mas a realização suprema, conhecida como libertação ou iluminação, é, em última instância inefável: está para além do discurso. Por isso, quando o adepto realizou o Si Mesmo e quer falar sobre a sua realização ou estado de unicidade e individualidade, tem de recorrer a metáforas, imagens e alegorias. Para nós o filme Matrix é uma excelente alegoria à viagem de autoconhecimeto e de autotranscendência da unicidade corpo-mente do ser humano em busca da liberdade. No filme, a mente gera mundos, transportando-se para espaços e tempos diferenciados, fruto da sua própria concepção; o corpo é divinizado em templos dedicados à dança e ao amor, em rituais afirmativos da libertação no mundo e não do mundo.
domingo, 15 de março de 2009
PROJECTO MATRIX
A máquina de experiências

«Suponham que existe uma máquina de experiências capaz de nos fazer viver qualquer experiência que desejarmos. Neuro-psicólogos esmerando-se no engano poderiam estimular o vosso cérebro, de tal modo que acreditariam e sentiriam estar a escrever um grande romance, arranjar amigos ou a ler um livro interessante. Durante todo esse tempo, estariam a flutuar num reservatório com eléctrodos fixados ao vosso crânio. Será que ligariam essa máquina à vossa vida, estabelecendo antecipadamente um programa de experiências da vossa existência? Se receassem falhar alguma experiência desejável, podemos supor que empresas comerciais já fizeram investigações aprofundadas sobre a vida de inúmeras pessoas. Podem, assim, escolher na sua grande biblioteca ou no seu menu de experiências, seleccionando as experiências da vossa vida para os próximos dois anos, por exemplo. Decorridos esses dois anos, teriam dez minutos ou dez horas, fora do reservatório para escolher as experiências dos vossos próximos dois anos. Certamente que, uma vez no reservatório, deixariam de saber quem eram; pensariam que tudo acontece verdadeiramente. Outros podem ainda conectar-se para conhecer as experiências que desejam, mas não é necessário ninguém ficar desconectado para ajudar os outros (não se preocupem com problemas como o de saber quem opera as máquinas se toda a gente se conectar). Conectar-se-iam ainda assim? Que outra coisa nos pode preocupar que não seja o modo como sentimos a nossa existência interior? Não devem abster-se devido a alguns instantes de perturbação que separam o momento da vossa escolha e o momento em que se ligam à máquina. O que representa um momento de perturbação em comparação com uma vida de felicidade (se assim a escolherem), e porque sentir a mínima perturbação se a vossa decisão é a melhor?

O que nos interessa além das nossas experiências pessoais? Em primeiro lugar, nós queremos fazer certas coisas e não contentarmo-nos em ter a experiência de as fazer. No caso de certas experiências, é somente porque nós queremos, antes de mais, realizar as acções que desejamos ter experiência de as executar ou pensar que o fizemos. (Mas porque desejamos realizar esses actos e não apenas contentarmo-nos em ter essa experiência?) Uma segunda razão para não nos conectarmos, é que queremos ser de uma certa maneira, ser tal ou tal tipo de pessoa. Alguém em vias de flutuar num reservatório é um ponto indeterminado. Não existe resposta à questão: «A que se assemelha uma pessoa que permanece muito tempo num reservatório?» Essa pessoa é corajosa, boa, inteligente, brilhante, afectuosa? Não é que seja simplesmente difícil de responder: Ela não chega a ser nada. Conectar-se a uma máquina é um modo de suicídio. Pode parecer a alguns, presos a uma imagem, que nada do que possamos ser conta se não na medida em que isso se reflecte nas nossas experiências. Mas deveremos surpreender-nos porque nos importamos com o que somos? Por que nos preocupamos apenas com o modo como preenchemos o nosso tempo e não com o que somos?
Em terceiro lugar, o facto de nos conectarmos a uma máquina de experiências limita-nos a uma realidade artificial, a um mundo que não é nem mais profundo nem mais importante do que o que as pessoas podem construir. Não há verdadeiro contacto com uma realidade mais profunda, embora essa experiência possa ser simulada. Muitas pessoas desejam permanecer abertas a tais contactos e podem sondar significados mais profundos*. Isso torna mais claro o nível do conflito respeitante às drogas psicoactivas, que alguns consideram como simples máquina de experiências parciais, e outros como aberturas para uma realidade mais profunda; onde alguns vêem motivos para se conectar à máquina, outros vêem precisamente razões para não a experimentar.»
Nozick, Anarquia, Estado e Utopia (extracto)
______________________* As visões religiosas tradicionais diferem acerca do ponto de contacto com a realidade transcendente. Algumas afirmam que o contacto produz uma felicidade eterna ou Nirvana, mas elas não estabelecem uma diferença relevante entre a felicidade e uma simples utilização mais longa da máquina de experiências. Outras pensam que é intrinsecamente desejável realizar a vontade de um ser superior que nos criou, embora seja muito provável que ninguém pensaria assim, se descobrissem que tinham sido criados como objectos de diversão por uma criança extremamente poderosa vivendo noutra galáxia ou noutra dimensão. Outras ainda imaginam que é possível fundir-se com uma realidade mais elevada, deixando na sombra o grau de relevância de uma operação dessas, ou a questão de saber onde nos leva essa fusão.


